Todo ano, no tempo da Quaresma, acontece a Campanha da Fraternidade.
Já são mais de 50 anos, começou em 1964. A partir das diferentes realidades
sociais e situações existências do povo brasileiro se pretende despertar o
espírito comunitário e cristão no Povo de Deus, comprometendo, em particular,
os cristãos na busca do bem comum, educando para a vida em fraternidade, a
partir da justiça e do amor, exigência central do Evangelho, renovando a consciência
de responsabilidade de todos pela ação evangelizadora da Igreja na
evangelização, na promoção humana, em vista de uma sociedade justa e solidaria.
Neste ano o tema de reflexão será o tráfico humano, que
envolve diferentes situações: trabalho escravo, exploração sexual, extração de órgão
e trafico de crianças para adoção ilegal. A ONU estima que há 21 milhões de
vítimas, movimentando 32 bilhões de dólares por ano. O Papa Francisco diz que “o
Tráfico humano é uma atividade ignóbil, uma vergonha para nossas sociedades que
se dizem civilizadas”.
Num mundo globalizado, dominado pelo neoliberalismo, onde a
mobilidade humana é uma constante, estas
práticas se tornaram elementos comuns. São histórias de pessoas concretas, que
quase sempre enganadas, entraram formar parte de um submundo do qual sair se
torna quase impossível.
A escravidão tem sido uma constante na história da
humanidade, de fato o Brasil foi construído a partir de um sistema escravo, primeiro com os
indígenas e mais tarde com os escravos negros trazidos da África. Com o passo
do tempo a escravidão foi abolida, mas só na teoria, pois se tornou
discriminação.
Como exemplo disto podemos falar da exploração o que
acontece com uma das grifes mais famosa do país, Le Lis Blanc, que pagava às
costureiras 2,50 R$ pela confecção de uma calça, que depois era vendida por
quase 2.000,00 R$. Ou na Citrosuco, que mantinha presos 26 trabalhadores que
recolhiam laranjas, vivendo em condições infra-humanas e cada vez com mais
dívidas com a empresa. Inclusive no setor público, como aconteceu na prefeitura
de Valinhos, no interior de São Paulo, onde trabalhadores que construíam obras
para a prefeitura eram explorados. São amostras de uma triste realidade que
envolve muitas pessoas e que na maioria dos casos não é descoberta.
A Bíblia nos ajuda a refletir sobre este problema. A
dignidade da pessoa vem de Deus, que a coloca no ponto mais alto da Criação,
que libertou seu povo do Egito e da Babilônia, que na Lei e nos profetas converteu-se
em defensor dos injustiçados, pois oprimir o pobre é o maior de todos os
pecados (cf. Am. 4,1). Nesse sentido, Jesus se apresenta como aquele que
proclama a liberdade aos cativos (cf. Lc. 4, 18-19), como testemunha da compaixão
e da misericórdia, resgatando a dignidade da mulher e acolhendo as crianças.
Esta visão bíblica foi recolhida pela Doutrina Social da Igreja, que defende a
dignidade e liberdade do ser humano, imagem de Cristo, mostrando que o Reino se
constrói a partir da evangelização e o compromisso social, que nos leva a
defender os direitos humanos.
Na Igreja brasileira há muitos exemplos de compromisso nesse
sentido. Podemos falar do trabalho da CPT, a Pastoral do Migrante, o trabalho
da CRB, Comissão de Justiça e Paz, as Caritas Diocesanas, Pastoral do Menor.
Somos desafiados neste tempo de Quaresma, a partir da reflexão
que nos propõe a Campanha da Fraternidade, a entrar no caminho da conversão a nível
pessoal, comunitário e social, sendo presença que consola e ajuda, denunciando um
sistema baseado no mercado, que coloca o lucro em primeiro lugar acima das
pessoas e da vida.
O Papa Francisco, na mensagem à CNBB, diz que “Não é
possível ficar impassível, sabendo que existem seres humanos tratados como
mercadoria!” e “A dignidade humana é igual em todo o ser humano: quando piso-a
no outro, estou pisando a minha. Foi
para a liberdade que Cristo nos libertou!”
Que Nossa Senhora das Dores, que ficou do lado do seu Filho
Crucificado, faça crescer a solicitude pelos irmãos e irmãs explorados
cruelmente pelo tráfico humano.
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