miércoles, 5 de marzo de 2014

Fraternidade e Tráfico Humano



Todo ano, no tempo da Quaresma, acontece a Campanha da Fraternidade. Já são mais de 50 anos, começou em 1964. A partir das diferentes realidades sociais e situações existências do povo brasileiro se pretende despertar o espírito comunitário e cristão no Povo de Deus, comprometendo, em particular, os cristãos na busca do bem comum, educando para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor, exigência central do Evangelho, renovando a consciência de responsabilidade de todos pela ação evangelizadora da Igreja na evangelização, na promoção humana, em vista de uma sociedade justa e solidaria.

Neste ano o tema de reflexão será o tráfico humano, que envolve diferentes situações: trabalho escravo, exploração sexual, extração de órgão e trafico de crianças para adoção ilegal. A ONU estima que há 21 milhões de vítimas, movimentando 32 bilhões de dólares por ano. O Papa Francisco diz que “o Tráfico humano é uma atividade ignóbil, uma vergonha para nossas sociedades que se dizem civilizadas”.

Num mundo globalizado, dominado pelo neoliberalismo, onde a mobilidade  humana é uma constante, estas práticas se tornaram elementos comuns. São histórias de pessoas concretas, que quase sempre enganadas, entraram formar parte de um submundo do qual sair se torna quase impossível. 

A escravidão tem sido uma constante na história da humanidade, de fato o Brasil foi construído a  partir de um sistema escravo, primeiro com os indígenas e mais tarde com os escravos negros trazidos da África. Com o passo do tempo a escravidão foi abolida, mas só na teoria, pois se tornou discriminação.

Como exemplo disto podemos falar da exploração o que acontece com uma das grifes mais famosa do país, Le Lis Blanc, que pagava às costureiras 2,50 R$ pela confecção de uma calça, que depois era vendida por quase 2.000,00 R$. Ou na Citrosuco, que mantinha presos 26 trabalhadores que recolhiam laranjas, vivendo em condições infra-humanas e cada vez com mais dívidas com a empresa. Inclusive no setor público, como aconteceu na prefeitura de Valinhos, no interior de São Paulo, onde trabalhadores que construíam obras para a prefeitura eram explorados. São amostras de uma triste realidade que envolve muitas pessoas e que na maioria dos casos não é descoberta.

A Bíblia nos ajuda a refletir sobre este problema. A dignidade da pessoa vem de Deus, que a coloca no ponto mais alto da Criação, que libertou seu povo do Egito e da Babilônia, que na Lei e nos profetas converteu-se em defensor dos injustiçados, pois oprimir o pobre é o maior de todos os pecados (cf. Am. 4,1). Nesse sentido, Jesus se apresenta como aquele que proclama a liberdade aos cativos (cf. Lc. 4, 18-19), como testemunha da compaixão e da misericórdia, resgatando a dignidade da mulher e acolhendo as crianças. Esta visão bíblica foi recolhida pela Doutrina Social da Igreja, que defende a dignidade e liberdade do ser humano, imagem de Cristo, mostrando que o Reino se constrói a partir da evangelização e o compromisso social, que nos leva a defender os direitos humanos.

Na Igreja brasileira há muitos exemplos de compromisso nesse sentido. Podemos falar do trabalho da CPT, a Pastoral do Migrante, o trabalho da CRB, Comissão de Justiça e Paz, as Caritas Diocesanas, Pastoral do Menor.

Somos desafiados neste tempo de Quaresma, a partir da reflexão que nos propõe a Campanha da Fraternidade, a entrar no caminho da conversão a nível pessoal, comunitário e social, sendo presença que consola e ajuda, denunciando um sistema baseado no mercado, que coloca o lucro em primeiro lugar acima das pessoas e da vida.

O Papa Francisco, na mensagem à CNBB, diz que “Não é possível ficar impassível, sabendo que existem seres humanos tratados como mercadoria!” e “A dignidade humana é igual em todo o ser humano: quando piso-a no outro, estou pisando a minha. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou!”

Que Nossa Senhora das Dores, que ficou do lado do seu Filho Crucificado, faça crescer a solicitude pelos irmãos e irmãs explorados cruelmente pelo tráfico humano.

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